Estruturas Conceituais

Educação - Visão Criacionista

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UMA VISÃO CRIACIONISTA DA EDUCAÇÃO
Ruy C
arlos de Camargo Vieira
(Engenheiro Mecânico e Eletricista, Professor Emérito da Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo, ex-Conselheiro do Conselho Federal de Educação, e Fundador e Presidente da Sociedade Criacionista Brasileira)

1. INTRODUÇÃO
A motivação para escrever este artigo foi a palestra efetuada há treze anos em um Encontro de Professores da Associação Planalto Central da Igreja Adventista do Sétimo Dia realizado em Brasília, ocasião em que pude apresentar alguns dados que havia coletado sobre o início da Educação Adventista nos Estados Unidos da América, cuja divulgação julguei oportuna em nosso meio. (1)

Esses dados incluíam interessantes observações que haviam sido apreciadas pela Conferência Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia realizada em 1903, em Oakland, Califórnia, tanto em Relatório sobre a Educação Adventista (2), apresentado em 7 de abril, pelo Pastor Edward Alexander Sutherland (então Departamental de Educação da Associação Geral) (3), como também em “Sermão sobre a Educação Cristã” (4) proferido em 10 de abril pelo Pastor Alonzo T. Jones (na época Presidente da Associação da Califórnia da Igreja Adventista do Sétimo Dia) (5).


Dentre tais observações, puderam ser destacados alguns importantes aspectos ligados à propugnação da Educação Cristã desde os tempos da pregação de Guilherme Miller, posteriormente trazidos à Igreja Adventista por Ellen White, “tendo então Deus posto perante o Seu povo as bases de um sistema de educação cristã”.

Puderam, também, ser destacadas naquelas observações, algumas preocupações expostas pelo Pastor Sutherland referentes à educação adventista e ao panorama geral da educação secular nos E.U.A. no início do século vinte.

Naquela época, conforme o Relatório do Pastor Sutherland, havia cerca de 35.000 crianças e jovens na denominação, dos quais apenas 5.000 estudavam nas escolas denominacionais. Lamentava o Pastor Sutherland que então cerca de 30.000 crianças e jovens estivessem sendo educados em instituições que nada tinham a ver com as peculiaridades dos processos e objetivos da educação visados pela denominação.

E trazia ele à consideração um impressionante dado: o número dos filhos dos que tinham sido adventistas desde cinqüenta anos atrás, e que haviam deixado a Igreja, era maior do que o número de membros então existentes ao escrever ele o seu Relatório! Dentro desse quadro, comentou ele a importância do sistema educacional para a formação e o fortalecimento dos quadros da Igreja, e terminou o seu Relatório com a advertência de que a Igreja, então, de posse de tão grande luz sobre a educação cristã, não viesse a incidir nos mesmos erros cometidos no decorrer do século dezenove pelas denominações evangélicas nos E.U.A., que passaram a confiar mais na educação secular do que nos princípios bíblicos que indicam os verdadeiros caminhos que levam à vida eterna!

Ressaltou, ainda, o Pastor Sutherland em seu Relatório, que preocupação análoga era manifesta externamente à Igreja, como verificado em pronunciamento de um dos mais conceituados educadores americanos,
Charles William Eliot, Presidente da Harvard University, que, falando em uma reunião de professores em New Haven, na Nova Inglaterra, em 17 de outubro de 1902, havia destacado as necessidades a serem satisfeitas pela educação, em face das deficiências do processo educacional então vigente. [A hoje famosa Harvard University (bem como Yale) nada mais eram, no início, do que Escolas Bíblicas cujo objetivo era formar ministros que levassem o Evangelho para o mundo. Entretanto, em pouco tempo Yale e Harvard perderam de vista sua perspectiva cristã e se tornaram escolas seculares, meramente “clássicas”, despojadas da visão cristã da educação.]

Conforme as próprias palavras do Presidente da Harvard University, citadas pelo Pastor Sutherland, a ineficácia da educação secular americana podia ser comprovada pelas seguintes oito grandes frustrações encontradas então no seio da sociedade americana, e cuja atualidade, praticamente um século depois, não deixa de ser impressionante tanto no âmbito dos próprios E. U. A. quanto também em nosso país:

“1. Alcoolismo (hoje abrangendo também o uso e abuso de entorpecentes);
2. Jogos de azar (hoje incluindo loterias e similares, patrocinados pelo próprio poder público);
3. Má gestão da coisa pública (hoje incluindo corrupção generalizada nos órgãos públicos);
4. Crime, violência e insegurança (hoje abrangendo estupros, sequestros, e terrorismo);
5. Publicações degradantes (hoje se estendendo a todos os modernos meios de comunicação);
6. Espetáculos teatrais populares (hoje invadindo os lares mediante programações imorais da Televisão);
7. Charlatanismo médico (hoje adicionado à propaganda enganosa de tratamentos miraculosos e medicamentos ineficazes e prejudiciais);
8. Greves trabalhistas (hoje abrangendo a violência de outros movimentos sociais reivindicatórios).” (6)

E tentando procurar as raízes dessas mazelas sociais, o Presidente da Harvard destacou como uma das principais causas desse panorama o fato de que, desde a Guerra Civil Americana (terminada em 1865), a influência das igrejas havia sensivelmente diminuído nos E. U. A.:

“Seu controle sobre a educação diminuiu distintamente. Algumas denominações parecem ater-se a uma metafísica arcaica e a um imaginário poético mórbido [isto é, à chamada “alta crítica”].

Outras, aparentemente, tendem a refugiar-se nas cerimônias, pompa, tradições e observâncias.” (7)

Complementando a visão histórica apresentada pelo Pastor Sutherland, reforçada pelo Presidente da Harvard University, o Pastor Jones destacou em seu sermão as legítimas aspirações que o mundo secular apresentava, e mostrou que somente a educação cristã seria capaz de atendê-las. Após várias considerações, é surpreendente que ele tenha se concentrado no tema da necessidade de uma reforma educacional centrada no criacionismo bíblico, em contraposição à avalanche evolucionista surgida após 1859 com a publicação de “A Origem das Espécies” e que (segundo ele, e com nossa total concordância) em grande parte estava sendo a responsável pelos fracassos e frustrações da educação secular nos Estados Unidos:

“Então o que se torna necessário? É necessário um movimento de reavivamento, de reforma, hoje, como nos dias de Lutero. E uma reforma baseada nos mesmos princípios defendidos então por Lutero. Princípios que repudiaram o método secular, com suas raízes na Grécia clássica. ... (e puseram) a Bíblia em seu verdadeiro lugar, como fonte de toda educação. ... (Lutero) concitou o povo a não mandar seus filhos para escolas que não se baseassem predominantemente na Bíblia.

E é esta a mensagem que necessitamos hoje, a mensagem que os Adventistas do Sétimo Dia têm a obrigação de pregar hoje ao mundo. A esta pregação sucederá uma reforma. ... A educação será concebida em termos do criacionismo; a Igreja que ministrará esta educação para o mundo será uma igreja criacionista, em contraposição ao evolucionismo. ... E quem poderá proceder desta forma senão o povo que guarda em sua vida o memorial da criação? Por que Deus nos deu o Sábado? Uma das maiores razões pelas quais ele nos deu o Sábado é para que fôssemos guardiões da Criação nestes dias em que o evolucionismo está arrastando o mundo para longe de Deus. ... A Igreja estabelecerá um sistema educacional que verdadeiramente educará todos os que por ele passarem ... e a educação por ela provida será verdadeira educação para hoje e para a eternidade.” (8)

Em face deste quadro, que não deixa de ser bastante atual tanto nos E. U. A. como em nosso país, apesar de decorrido praticamente um século, qual deveria ser a nossa mensagem precípua hoje para o mundo? Sem dúvida é a mensagem criacionista centrada na educação cristã! Daí a motivação para escrever este artigo sobre “Uma Visão Criacionista da Educação”, com a esperança de que ele possa também despertar educadores cristãos a perseverar em sua missão.

2. CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE EDUCAÇÃO

2.1. BREVES OBSERVAÇÕES ETIMOLÓGICAS E SEMÂNTICAS SOBRE EDUCAÇÃO

Para discernirmos melhor uma visão criacionista da Educação, certamente convém procurarmos não só a etimologia desse termo, como também explorarmos alguns aspectos semânticos pertinentes. Educação provém do Latim, reportando-se à raiz do verbo duco, ducere, cujo significado básico é conduzir. Deste verbo procedem dois outros, com significados bastante próximos – educo, educare, e educo, educere. O primeiro significa nutrir, amamentar; educar, instruir, ensinar, amestrar. O segundo, criar, nutrir, manter, sustentar. Derivados destes verbos são educator, a pessoa que cria, educatus, a pessoa criada, e educatio, a ação de criar.(9)

Uma peculiaridade da língua portuguesa é o termo criança, para designar a pessoa que está sendo criada, o educando por excelência! Em outras línguas criança deriva de raízes distintas, mais ligadas à acepção de filho, como exemplificado, por exemplo, em Espanhol niño, em Francês enfant, e em Inglês child.

A educação, semanticamente, é portanto um processo. Nele, o educando vai sendo conduzido por um determinado caminho para atingir os objetivos visados. A criança (ou educando) vai sendo nutrida, instruída, mantida e sustentada – nos aspectos físico e mental.

Ressalta neste processo, evidentemente, a importância que assume o papel do educador. É dele que, fundamentalmente, depende o processo educativo. A secularização da educação, hoje generalizada, deve-se precipuamente a educadores de mente secularizada, e da mesma forma a educação criacionista só pode se tornar uma realidade mediante a atuação de educadores criacionistas devidamente capacitados, conscientes da verdadeira natureza da controvérsia entre as estruturas conceituais criacionista e evolucionista.

2.2. O PROCESSO EDUCATIVO

Dentre os parâmetros que influem na condução do processo educativo, de maneira geral, situam-se as definições a serem dadas aos fatores que nela intervêm, como por exemplo:
1. o caminho a ser percorrido,
2. os objetivos a serem visados,
3. a competência do educador para a execução de sua tarefa.

Em função das distintas estruturas conceituais adotadas aprioristicamente para a definição do processo educativo, poderemos ter dois extremos excludentes – a educação cristã, de cunho criacionista, e a educação secular, de cunho evolucionista.

· Sob o ponto de vista da educação cristã, deve-se seguir o caminho preconizado para os israelitas ao saírem do Egito, com o objetivo de prepará-los para serem um povo peculiar, com a missão de levar ao mundo o conhecimento do verdadeiro Deus.

Em Deuteronômio, capítulo 6, versículos 4 a 7, fica claro o processo que deveria ser seguido nesse caso – “estas palavras ... tu [os pais] as inculcarás a teus filhos”.

Dão os dicionaristas para o verbo inculcar o sentido de “apontar, citar, recomendar, propor, indicar, aconselhar”. É este um caminho no qual o educador respeita a personalidade do educando em seus aspectos físico, mental e espiritual!.

· Na educação secular, por outro lado, tem sido adotado um caminho com fundamento no racionalismo, no agnosticismo, no materialismo e no ateísmo, que tem imposto conceitos preconcebidos e estabelecido paradigmas axiomáticos apresentados como verdades incontestes, frontalmente contrárias aos ensinamentos bíblicos.

É este o caminho que, lamentavelmente, em termos de sociedade, em seu extremo sabidamente leva ao autoritarismo e ao totalitarismo, com todas as suas funestas conseqüências, como tem sido demonstrado pela própria história. Haja vista o surgimento de “condutores” (seriam educadores?) como, por exemplo, o Ducce na Itália fascista e o Führer na Alemanha nazista, com todos os conhecidos desdobramentos a que os respectivos processos de uma chamada “educação das massas” acabaram levando.

De forma semelhante ao ocorrido nos tempos da intolerância medieval, lamentavelmente hoje também têm sido impostos por educadores ateístas, materialistas e evolucionistas, dogmas supostamente científicos, que não toleram sequer o exame da viabilidade de alternativas que considerem o elemento sobrenatural, no processo educativo, em manifesto desrespeito à personalidade do educando em seus aspectos físico, mental e espiritual.

Nesse contexto, vale lembrar que uma das mais notáveis definições do processo educativo é a que se encontra no livro “Educação”, como sendo “o desenvolvimento harmônico das faculdades físicas, intelectuais e
espirituais” (10)

No contexto secular atual, em que predominam os conceitos de evolução em todas as áreas do conhecimento humano, talvez pudesse surgir alguma dúvida quanto ao verdadeiro sentido da palavra desenvolvimento aí utilizada.

De fato, o conceito de evolução como apresentado modernamente, está intimamente ligado ao conceito de desenvolvimento, e poder-se-ia ser levado a considerar erroneamente o processo educacional como integrado a um suposto processo evolutivo que tudo permeasse.

No entanto, o processo de desenvolvimento educacional, implícito naquela definição apresentada para a educação, corresponde àquilo que o texto bíblico relata quanto ao que ocorria com o desenvolvimento de Cristo em sua infância e juventude:

· “Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre Ele” (S. Lucas 2:40). Eis aí um processo de crescimento, nutrição ou desenvolvimento, harmônico – fortalecimento físico, sabedoria intelectual, e graça espiritual.
· Em S. Lucas 2:52 é reiterado o processo educativo pelo qual passava Jesus: “E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens”.

Voltando aos citados dois extremos excludentes do processo educativo, levado ao nível da educação formal, verifica-se que o conflito entre elas já havia transparecido nos tempos apostólicos, em particular quando o apóstolo Paulo teve a oportunidade de discutir no Areópago com os filósofos de duas correntes antagônicas – os epicuristas e os estóicos. Epicuristas eram adeptos da estrutura conceitual evolucionista introduzida por Epicuro desde o século quarto a. C., enquanto os estóicos, embora não sendo cristãos, eram adeptos da estrutura conceitual criacionista, mantendo-se fieis às raízes tradicionais da religião grega(11).

Conforme o relato bíblico, naqueles tempos apostólicos havia no mundo três grandes centros educacionais – Corinto, Éfeso e Atenas – nos quais o cristianismo foi pregado especialmente pelo apóstolo Paulo, tendo então ficado evidente o confronto entre as concepções distintas da educação pagã (evolucionista) e cristã (criacionista).

De fato, Paulo pregou em Corinto durante aproximadamente um ano e meio, e posteriormente escreveu cartas para a igreja local. Na sua primeira carta Paulo declara:

“Pois Deus, na Sua sabedoria, não deixou que os seres humanos O conhecessem por meio da sabedoria deles.” (I Coríntios 1:21, NVLH)

“A sabedoria deles [hoje diríamos, “a ciência secularizada” deles] foi a causa de não terem eles conhecido a Deus, e essa sabedoria era conseqüência direta de sua educação, pelo que, foi a sua educação que os impediu de conhecer a Deus. O desconhecimento de Deus, porém, constitui suprema ignorância. Ignorância é falta de conhecimento, e se a educação deles os levou à ignorância, a própria educação deles nada mais era senão suprema ignorância.” (12)

Paulo pregou também em Éfeso, durante mais de dois anos, e depois escreveu para a igreja local: “Isto, portanto, digo, e no Senhor testifico, que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade de seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem” (Efésios 4:17-18).

“Novamente o relato bíblico deixa claro que o pináculo da cultura humana, compreendida na educação, era naqueles dias mera ignorância – os homens estavam ‘alheios à vida de Deus’ pela ignorância em que viviam. Pela segunda vez fica claro que a educação contemporânea era mera ignorância.” (13).

Paulo esteve também em Atenas, o principal centro educacional da época, cuja influência se faz sentir até hoje em nossos dias. Lá, no Areópago, para onde quer que se olhasse só se viam imagens de ouro, prata, mármore, esculpidas por artistas famosos. A sua educação os havia conduzido à arte, e essa arte culminara na idolatria, sem o conhecimento de Deus, como nos destaca o relato bíblico:

“Porque passando e observando os objetos de vosso culto encontrei também um altar no qual está inscrito: Ao Deus desconhecido” (Atos 17:23).

“Novamente, nessa confissão de desconhecimento do verdadeiro Deus encontrava-se implícita pela terceira vez sua suprema ignorância – aquele altar era um monumento dos atenienses à sua própria ignorância!”(14)

E em seu discurso continuou Paulo:

“Pois esse que adorais sem conhecer é precisamente Aquele que vos anuncio – o Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe ... que de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a Terra ... Não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, à prata, ou à pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem. Ora, Deus não levou em conta os tempos da ignorância, agora, porém, notifica aos homens que todos em toda a parte se arrependam” (Atos 17:23-30).

“Mas, arrepender-se do que? ... Na realidade, a filosofia, a ideia, a própria concepção daquela educação, sua mola propulsora, era a dúvida. E a dúvida leva aquele que a exerce ao desconhecimento, à ignorância. ... Sua ignorância decorria de sua educação! Logo, o apóstolo estava-os concitando a arrepender-se de sua educação! ...

Arrependimento significa mudança de mentalidade, significa deixar a mentalidade da dúvida e trocá-la pela mentalidade da fé. Significa começar a trilhar um novo caminho, deixando de lado as coisas que para trás ficam. ... A fonte da educação cristã é a fé, sem a qual não pode haver verdadeira educação que restaure no homem a imagem de Deus.” (15)

Esse conflito, exacerbado no início da história da Igreja, torna-se também implícito na advertência dada pelo apóstolo Paulo em I Timóteo, capítulo 6, versículos 20:

“E tu, Timóteo, guarda o que te foi confiado, evitando os falatórios inúteis e profanos, e as contradições do saber, como falsamente lhe chamam, pois alguns, professando-o, se desviaram da fé”.

Cabe inserir aqui, finalmente, um precioso texto que se encontra no livro “Testemunhos Seletos”, de autoria de Ellen G. White:

“O ideal do caráter cristão é semelhança com Cristo. Acha-se aberta diante de nós uma senda de progresso contínuo. Temos um objetivo a atingir, uma norma a alcançar, a qual inclui tudo quanto é bom, puro, nobre e elevado. Deve haver constante progresso para diante e para cima, rumo à perfeição do caráter.” (16)

A educação cristã é o processo pelo qual se realiza esse progresso.

 

2.3. BREVES OBSERVAÇÕES ETIMOLÓGICAS E SEMÂNTICAS SOBRE DESENVOLVIMENTO

Considerações semânticas adicionais quanto ao processo de desenvolvimento no âmbito da educação cristã podem ser feitas, para deixar bem clara a sua diferença com relação a qualquer suposto processo evolutivo: Desenvolvimento deriva do verbo desenvolver, que os dicionaristas definem como fazer crescer, mediar, prosperar, pôr em prática, exercer, exercitar, explicitar, crescer, aumentar, progredir, aprimorar.

A raiz do verbo desenvolver é derivada do verbo volver, cujo sentido é o de mudar de posição, voltar, retornar. (Volver tem a ver com o processo de conversão, como se vê facilmente na voz usual da ordem unida nos exercícios militares – “Direita, volver!”, “Meia-volta, volver!”). Deste verbo provém também o verbo envolver, com o sentido de abranger, encerrar, conter (por exemplo, em expressões tais como “envolto em mistério”).

É curioso observar que em diversas outras línguas o verbo desenvolver relaciona-se com o verbo revelar. Ao se adquirir um filme fotográfico, por exemplo, e ler as instruções que são feitas no folheto explicativo que o acompanha, pode-se facilmente constatar que a revelação do filme tem a ver com “desenvolvimento”. De fato, exemplificando, em Espanhol desarrollar é o verbo usado para revelar (ao mesmo tempo significando desenvolver), em Francês, analogamente, developper; e em Inglês, to develop.

Na revelação de um filme fotográfico (antes da era das modernas máquinas digitais onipresentes atualmente) vai-se de fato desenvolvendo um conjunto de reações químicas que gradativamente vão formando na película a imagem daquilo que havia sido fotografado, e que ainda estava “envolvido em mistério”, até finalmente ficar impresso com nitidez. Numa fotografia obtida com câmara polaróide fica visível em curto intervalo de tempo esse processo de revelação, que bem caracteriza o processo do desenvolvimento das faculdades que se realiza através da educação.

No contexto da educação cristã, portanto, o desenvolvimento nada tem de evolutivo no sentido darwinista do termo, mas sim no sentido de uma revelação gradativa das potencialidades intrínsecas do ser humano, como destacado no trecho seguinte do já mencionado livro “Educação”, de Ellen White:

“Cada ser humano, criado à imagem de Deus, é dotado de certa faculdade própria do Criador – a individualidade – faculdade esta de pensar e agir. Os homens nos quais se desenvolve esta faculdade são os que arrostam responsabilidades, que são os dirigentes nos empreendimentos, e que influenciam nos caracteres. É a obra da verdadeira educação desenvolver esta faculdade, adestrar os jovens para que sejam pensantes e não meros refletores do pensamento de outrem. Em vez de limitar o seu estudo ao que os homens têm dito ou escrito, sejam os estudantes encaminhados às fontes da verdade, aos vastos campos abertos a pesquisas na natureza e na revelação.” (17)

 

3. CONCEITOS CRIACIONISTAS ESPECÍFICOS NA EDUCAÇÃO CRISTÃ

3.1. BREVE ANTOLOGIA DE CUNHO CRIACIONISTA REFERENTE À EDUCAÇÃO CRISTÃ

 

Os “vastos campos abertos a pesquisas na natureza e na revelação” foram explorados por pesquisadores que lançaram os fundamentos da ciência moderna há cerca de dois séculos atrás, os quais mantiveram uma atitude de reverência em face das notáveis evidências que encontraram em suas pesquisas a favor de um Criador. Como exemplo típico pode ser citado Sir Isaac Newton, que se manifestou da seguinte forma a respeito de seus escritos sobre o Sistema Solar:

“Quando escrevi meu tratado sobre nosso sistema (solar), tinha meus olhos voltados a princípios que podiam funcionar considerando a crença da humanidade em uma Divindade, e nada me dá maior prazer do que vê-lo sendo útil para esse fim.” (18)

“Os movimentos que os planetas têm hoje não podiam ter originado em uma causa natural isolada, mas foram impostos por um agente inteligente.” (19)

Em outros escritos de Newton, fica clara a sua viva fé em um Deus Criador, ao qual freqüentemente ele se referia usando a expressão grega “Pantokrator”, o Todo-Poderoso, “com autoridade sobre todas as coisas existentes, sobre a forma do mundo natural e o curso da história humana”. Fica clara a menção implícita feita por Newton ao quarto mandamento, que é o único das Tábuas da Lei que apresenta o Deus que estava escrevendo os Dez Mandamentos como Criador de todas as coisas:

“Devemos acreditar que há um único Deus ou monarca supremo a quem podemos temer e obedecer e cumprir suas leis e honrar e glorificar. Devemos acreditar que Ele é o pai de quem provêm todas as coisas, e que ama Seu povo como Seus filhos, para que eles possam, em reciprocidade, amá-lO e Lhe prestar obediência como seu Pai. Devemos crer que Ele é o “Pantokrator”, Senhor de todas as coisas, com um poder e um domínio irresistíveis e ilimitados, aos quais não temos esperança de escapar, se nos rebelarmos e instaurarmos outros deuses, ou se transgredirmos as leis de Sua soberania, e dos quais podemos esperar grandes recompensas, se fizermos Sua vontade. Devemos crer que Ele é o Deus dos judeus, que criou o céu e a Terra e todas as coisas que neles existem, como está expresso nos Dez Mandamentos, para que possamos agradecer-Lhe por nosso ser e por todas as bênçãos desta vida, e nos abstermos de usar Seu nome em vão ou de adorar imagens ou outros deuses.” (20)

De forma coerente com manifestações como essa, de Newton (bem como de outros numerosos “pais da ciência moderna”), encontram-se no já citado livro “Educação”, textos vários que destacam o inter-relacionamento do estudo da natureza com o da revelação de Deus, no contexto do processo educativo em conexão com a estrutura conceitual criacionista, como os seguintes:

· “Desde que Deus é a fonte de todo o verdadeiro conhecimento ... o principal objetivo da educação é dirigir a mente à revelação que Ele faz de Si próprio”. (21)

· “Visto como o livro da natureza e o da revelação apresentam indícios da mesma mente superior, não podem eles deixar de estar em harmonia mútua. Por métodos diferentes, em diversas línguas, dão testemunho das mesmas grandes verdades. A ciência está sempre a descobrir novas maravilhas; mas nada traz de suas pesquisas que, corretamente compreendido, esteja em conflito com a revelação divina. O livro da natureza e a Palavra escrita lançam luz um sobre o outro. Familiarizam-nos com Deus, ensinando-nos algo das leis por cujo meio Ele opera.” (22)

· “Inferências erroneamente tiradas dos fatos observados na natureza têm, entretanto, dado lugar a supostas divergências entre a ciência e a revelação; e nos esforços para se restabelecer a harmonia, têm-se adotado interpretações das Escrituras que solapam e destroem a força da Palavra de Deus.” (23)

· “A natureza ainda fala de seu Criador. Todavia, estas revelações são parciais e imperfeitas. E em nosso decaído estado, com faculdades enfraquecidas e visão restrita, somos incapazes de interpretá-las corretamente. Necessitamos da revelação mais ampla que de Si mesmo Deus nos outorgou em Sua Palavra escrita.” (24)

· “Aquele que mais profundamente estudar os mistérios da natureza, mais plenamente se compenetrará de sua própria ignorância e fraqueza. Compreenderá que existem profundidades e alturas que não poderá atingir, segredos que não poderá penetrar, e vastos campos de verdades jazendo diante de si, não penetrados. Dispor-se-á a dizer com Newton: ‘Pareço-me com a criança na praia, procurando seixos e conchas, enquanto o grande oceano da verdade jaz por descobrir diante de mim’.” (25)

Sem dúvida, é este um conjunto de afirmações que não deixam de ser impressionantes, não só por implicitamente caracterizarem a educação cristã, seus caminhos e seus objetivos, mas também pelo fato de a posicionarem no contexto dos grandes debates filosóficos e pedagógicos dos dois últimos séculos, particularmente perante a crescente controvérsia entre o Criacionismo e o Evolucionismo, tão intensificada a partir das últimas décadas do século vinte.

 

3.2. PRIMÓRDIOS DA EDUCAÇÃO CRISTÃ CRIACIONISTA NO BRASIL

Não obstante a catequese jesuítica ter-se iniciado no Brasil praticamente desde os primeiros Governos Gerais, logo após o descobrimento, no início do século dezesseis, indubitavelmente esse tipo de processo educativo (se assim o podemos denominar) longe está de poder ser confundido com o que foi considerado no item anterior como educação cristã.

A educação cristã, propriamente dita, na qual se insere a educação criacionista pelo simples fato de que o seu fundamento básico é a própria Bíblia, em cujo primeiro livro, primeiro capítulo, primeiro versículo, se encontra a solene declaração de que “No princípio criou Deus os céus e a terra”, teve realmente sua origem no Brasil com as primeiras escolas fundadas pelos imigrantes luteranos, vindos da Europa em fins do século dezenove.

Por outro lado, talvez se pudesse afirmar que a educação criacionista, preconizada pela Reforma Luterana, tenha tido a sua origem no primeiro compêndio de sistematização detalhada da Pedagogia Moderna, de autoria de João Amós Comênio: sua “Didática Magna”, escrita em 1638.

De fato,“Ele considerava que a Bíblia, ao lado da natureza e da própria mente humana eram livros reveladores da Pessoa do Criador e do conhecimento universal, mas que a Escritura como revelação escrita de Deus, era a maior das três fontes de conhecimento e a mais perfeita obra de literatura. ...

Comênio, no processo de desenvolvimento de sua teologia-educação, deu uma grande contribuição para a conjunção de ciência e religião .... Comênio via a Bíblia como fonte de conhecimento científico. Ele observou que o ponto de partida da abordagem científica era a investigação de todas as coisas naturais, e que a Bíblia era a interpretação da natureza criada por Deus. O espírito da ciência e a religião poderiam fazer o homem ver a unidade essencial sob a diversidade superficial do mundo, uma vez que ambas oferecem caminhos para o mesmo resultado. ... Neste sentido, Comênio não aceitava a separação de ciência e religião ou razão e fé numa pedagogia que poderia desenvolver o conhecimento humano universal.” (26)

A Reforma do décimo-sexto século havia sido uma tentativa de colocar novamente o povo de Deus na posição de “educadores do mundo”. Martinho Lutero, Melanchton, e outros reformadores viram a necessidade de estabelecer escolas “onde quer que existissem filhos de Deus que houvessem aceito a mensagem da salvação pela fé”, para que suas crianças não fossem educadas por outros que não tivessem fé irrestrita na Palavra de Deus. Isso trouxe também uma reforma nos métodos de ensino, nos livros-texto utilizados e nos conteúdos ministrados até então. Em pouco tempo a Alemanha passou a ser coberta de escolas paroquiais, tendo se tornado uma característica da Igreja Luterana o estabelecimento de escolas junto às igrejas.

Assim, no Brasil, alguns séculos após a Reforma de Lutero, nas zonas de colonização que receberam imigrantes alemães, lá estavam também as escolas paroquiais ao lado das igrejas luteranas.

No livro “Vida e Obra de Guilherme Stein Jr.” que apresenta a biografia desse personagem que foi o primeiro educador adventista brasileiro, há um capítulo especialmente dedicado às raízes da educação cristã no Brasil. Foi nele ressaltado esse importante papel pioneiro desempenhado pelas primeiras Igrejas Luteranas no Brasil, primando pelo estabelecimento de escolas paroquiais onde quer que elas se estabelecessem, como por exemplo, a Escola Alemã de Campinas, onde o próprio Guilherme Stein Jr. cursou os cinco anos de seus estudos primários, que sem dúvida foram extremamente importantes para sua formação. (27)

Tendo em vista destacar a importância desse processo educativo cristão criacionista em nosso país, já no início do século vinte, além dos conceitos mais gerais, anteriormente considerados e expressos nos trechos transcritos do livro “Educação”, cabe aduzir alguns outros conceitos, expressos por renomados autores (evangélicos e não), bastante ilustrativos pelo seu significado específico.

Assim, o historiador Domingos Ribeiro, em seu livro “Origens do Evangelismo Brasileiro” falando das escolas evangélicas no Brasil, declara:

“O princípio evangélico do livre exame desperta as forças latentes da intelectualidade, produzindo a fome e a sede do saber, apura o senso de responsabilidade, que é o traço mais vivo e mais característico da personalidade humana, capaz de atingir a sua finalidade terrena, espiritual e eterna”. (28)

Essa manifestação torna claro o relacionamento existente entre o princípio do livre exame aí destacado, e os demais princípios da educação cristã que foram exarados na transcrição das citações do livro “Educação” feitas anteriormente (particularmente nas Referências 21 e 24).

Continua Domingos Ribeiro a tecer considerações sobre o processo educativo cristão, no seu livro mencionado, citando também o renomado pastor presbiteriano Erasmo de Carvalho Braga, primeiro Presidente do
Conselho do Colégio Mackenzie:

“O objetivo do ensino evangélico é não somente a obtenção de uma salvação pessoal, mas também a manifestação do patriotismo, o amor ao próximo, o desejo de empregar todo e qualquer esforço e movimentos concentrados, que tendam a purificar de fraude a vida política, de crueldade a vida industrial, de desonestidade a vida comercial, de vícios e depravação todas as relações sociais.” (29)

Transparece nos objetivos da educação cristã expostos acima um posicionamento diretamente oposto ao da estrutura conceitual evolucionista no contexto do chamado “Darwinismo Social”, que preconiza a luta pela sobrevivência com o predomínio do mais forte, independentemente de qualquer aspecto ético, e que certamente está situada na raiz das grandes frustrações elencadas pelo Presidente da Harvard University em seu pronunciamento citado na Introdução deste artigo.

Influências como estas, dos princípios da educação cristã, também se haviam feito sentir de forma intensa no Brasil, desde as manifestações de Rui Barbosa no Parlamento do Império, em contraposição aos métodos jesuíticos que tradicionalmente haviam modelado a educação em nosso país, especialmente no âmbito do estudo da natureza:

“Mas esse viciamento dos processos praticados no ensino secundário resulta inevitavelmente da ausência do espírito científico, que só se poderá incutir, restituindo à ciência o seu lugar preponderante na educação das gerações humanas. ... Ora, a ciência é toda observação, toda exatidão, toda verificação experimental. Perceber os fenômenos, discernir as relações, comparar as analogias, e as dessemelhanças, classificar as realidades, e induzir as leis, eis a ciência; eis, portanto, o alvo que a educação deve ter em mente. Espertar na inteligência nascente as faculdades cujo concurso se requer nesses processos de descobrir e assimilar a verdade é o a que devem tender os programas e os métodos de ensino.” (30)

Mais tarde, o grande educador brasileiro Fernando de Azevedo, em seu livro “A Cultura Brasileira”, manifestou-se a respeito também da influência benéfica da educação cristã em nosso país no âmbito dos processos pedagógicos:

“É por isto, devido a essa coexistência simpática da laicidade com as confissões derivadas da Reforma, que as escolas protestantes tiveram, no regime republicano, os rápidos progressos que lhes abriram, na história da educação no País, não só um lugar indisputável mas uma fase fecunda de atividades renovadoras. Foi em grande parte através das escolas, sob a influência direta de ministros e educadores protestantes da América do Norte, que se processou no Brasil a propagação inicial das idéias pedagógicas americanas que começaram a irradiar-se em São Paulo com a fundação da Escola Americana em 1871 e do Colégio Piracicabano em 1881 e que, antes de refletirem no movimento de reforma de Caetano de Campos, Cesário Mota e Gabriel Prestes em São Paulo (1891- 1895), haviam inspirado as reformas de Leôncio de Carvalho (1878-1879) e o parecer de Rui Barbosa (1882-1883), já modelado pelas idéias americanas e alemãs.” (31)

Verifica-se, assim, nestes poucos exemplos citados, que em pouco menos de um século foi reconhecida em nosso país, por eminentes autoridades educacionais, a inestimável contribuição trazida pelos processos educativos fundamentados na concepção da educação cristã introduzida precipuamente pelas denominações evangélicas que aqui aportaram, desde o início da imigração germânica.

Neste panorama, avulta hoje a importância de que se reveste a rede de Escolas e Colégios Adventistas em nosso país, que se destacam como verdadeiros baluartes especialmente no que se refere à focalização criacionista dada em seus currículos no âmbito da educação cristã.

 

3.3. IMPORTANTES DOCUMENTOS ATUAIS

Todas as manifestações consideradas no item anterior situaram-se no contexto social e político brasileiro predominante no fim do século dezenove até meados do século vinte. Ainda hoje, entretanto, ao se tratar dos princípios que têm norteado as mais recentes reformas do sistema educacional brasileiro, novamente têm sido trazidos à consideração aspectos intimamente ligados às mesmas diretrizes preconizadas desde o início do século dezessete por Comênio e instituídos de maneira ampla no mundo evangélico após a Reforma religiosa do século dezesseis, em sintonia com os princípios da educação adventista expressos nas citações apresentadas no tópico 3.1 deste artigo.

É o que se pode ver, por exemplo, em um documento elaborado no final da década de 1990 por um renomado assessor pedagógico do SENAI-Nacional, versando sobre a Política Nacional de Formação Profissional:

“O objetivo fundamental a ser buscado com a formação de habilidades básicas é o de ensinar a pensar. Constata-se que este é um tema ainda pouco exercido pela literatura pedagógica, e em torno do qual existem concepções falsas. ... Aprender a pensar significa, entre outras coisas, aprender a identificar e superar alguns erros típicos do pensamento, aparentemente universais, como o apego ao juízo inicial sobre o fenômeno; parcialismo (tirar conclusões a partir de informação incompleta); visão estreita (ver somente o imediato sem inferir diante da nova situação); egocentrismo (concluir a partir de seus conceitos e preconceitos); arrogância (ficar com a primeira evidência que pode parecer lógica, sem seguir buscando dados); polarização (crer que está certo porque o outro tem opinião oposta); e o erro de priorização e extremismo (dimensionar mal a grandeza de um fenômeno). Estes exemplos servem para aquilatar a complexidade das novas (sic) tarefas da educação, que requer um rigoroso exame do sistema de formação técnico-profissional e da educação em seu todo, de forma a adequá-la aos novos paradigmas de formação que estão sendo demandados pela indústria e pela sociedade em geral.”(32)


É impressionante a concordância entre posicionamentos atuais, como este, de educadores interessados nos parâmetros para uma política nacional de educação em nosso país, visando a uma verdadeira reforma educacional, e as asserções anteriormente transcritas do livro “Educação”, referentes à obra da verdadeira educação no desenvolvimento da faculdade de pensar e agir, divinamente outorgada pelo Criador ao ser humano. (33)

Manifestações como essa são extremamente pertinentes, em face particularmente em face dos confrontos entre as estruturas conceituais criacionista e evolucionista no âmbito do ensino de ciências nas escolas de nível médio e superior.

Nesse mesmo sentido, outro importante documento, elaborado também no âmbito da Secretaria de Educação Fundamental do Ministério da Educação, aborda alguns tópicos que são de suma importância no contexto da controvérsia entre Criacionismo e Evolucionismo. Nesse documento, intitulado “Reflexões sobre o Processo Ensino- Aprendizagem do Conhecimento Químico”, são discutidas algumas questões controvertidas, como por exemplo, a seguinte: “O conhecimento atual é transmitido como verdade absoluta e não passível de mudanças?”. (34)

Uma indagação como esta pode ser generalizada para abranger não só o ensino da Química, como também dos outros ramos da ciência. Transcrevem-se a seguir trechos do respeitado Professor Pitombo (autor do documento citado) que ilustram a preocupação legítima com o que deveria constituir o correto procedimento no ensino das ciências:

“Esta questão é extremamente delicada. O conhecimento científico atual assumiu foros de verdade absoluta. Todas as evidências experimentais e provas nos levam a crer que o paradigma, modelo atual de partículas (átomos, moléculas) e suas propriedades, não poderá se transformar. Entretanto, também sabemos que os fatos ocorridos no mundo físico tiveram através dos tempos interpretações diversas, muitas vezes consideradas como visões absurdas, dentro da nossa forma de pensar atual.

Pensadores gregos, egípcios, mesopotâmicos, árabes, chineses, europeus, explicavam os fenômenos dentro das visões de mundo compatíveis com a maneira de pensar de cada época – todas elas absolutamente respeitáveis e consistentes com o pensamento contextualizado. ... O fundamental é transmitir aos alunos que o que é aceito hoje poderá ser modificado no futuro, como já foi anteriormente. ... É bem verdade que a transmissão desta posição é, como já foi mencionado anteriormente, muito delicada. Todos gostamos – mais ainda o adolescente – de trabalhar com “idéias certas”, com “verdades absolutas”. Entretanto, com a devida cautela e pertinência, temos que transmitir aos alunos que todas as formas de pensar e interpretar os eventos se transformam. ... Desta forma dever-se-á passar à ideia básica: A ciência e as idéias estão ainda em transformação.” (35)

Estas observações complementam também particularmente as de Rui Barbosa sobre o “espírito científico”, anteriormente expostas, e são extremamente importantes dentro do conceito da educação cristã, no contexto da controvérsia entre Criacionismo e Evolucionismo, que não se pauta por dogmas, mas sim pela análise objetiva de dados observados e coletados. E é exatamente devido a esta postura que jamais poderá haver discrepância entre a verdadeira ciência e a revelação divina. (36)


3.4. A PROBLEMÁTICA DEFLAGRADA NA ERA ESPACIAL

Para encerrar este terceiro tópico, pela sua importância no contexto da controvérsia entre as estruturas conceituais criacionista e evolucionista, deve ser feita menção à iniciativa da “National Science Foundation”, dos E. U. A., no final da década de 1950 e início da década de 1960, de patrocinar a edição de livros didáticos nas áreas da Física, da Química, da Biologia, e das Ciências Sociais.

Após o impacto causado na sociedade americana pelo espetacular lançamento da cápsula espacial soviética “Sputnik”, em 1957, despertou-se um enorme interesse pelo ensino de ciências em todos os níveis da educação nos E. U. A.. Uma substanciosa dotação da “National Science Foundation” incentivou então a publicação de novos livros-texto de ciências, dentro de uma nova postura, nas abordagens dos vários tópicos integrantes dos currículos escolares.

Essa nova postura lamentavelmente destacou-se pela “canonização” da estrutura conceitual evolucionista! Esses livros-texto logo transpuseram as fronteiras americanas e se espalharam por outras nações do mundo ocidental, aí incluído o nosso país, onde foram amplamente divulgados pelo Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (IBECC), e pela Fundação Brasileira para Desenvolvimento do Ensino de Ciências (FUNBEC). Todos eles, entretanto, foram estruturados dentro das idéias evolucionistas predominantes no modelo materialista e ateísta da ciência moderna, mostrando-se na realidade bastante dogmáticos sob esse aspecto, muito embora se apresentem como incentivando os estudantes a adotarem posturas de independência e iniciativa própria na pesquisa dos fenômenos da natureza.

A iniciativa da “National Science Foundation” é bastante ilustrativa no sentido de mostrar como a problemática da educação no mundo moderno transcende os aspectos puramente pedagógicos – reforma educacional e novos currículos – para envolver-se com questões metafísicas que se relacionam com a filosofia da ciência e os valores éticos, morais e religiosos aceitos pela sociedade – abordagem materialista, promoção do ateísmo – e até mesmo com a segurança nacional – guerra fria tecnológica, conquista do espaço, e os destinos do próprio país.

Nesse contexto de crise pedagógica, mais importantes se tornam a preconização e a defesa dos princípios da educação cristã, que orientam corretamente o desenvolvimento pleno das faculdades do ser humano para viver no mundo de hoje refletindo o caráter de seu Criador, e para enfrentar as forças destrutivas do ateísmo e do materialismo, que sob as mais diversas formas atuam para contrapor-se ao grande plano de Deus para a salvação da humanidade.

 

4. CONCLUSÃO

Desde os tempos áureos da filosofia na Grécia antiga, passando pelos tempos do início do Cristianismo e chegando a Comênio e a Lutero após o período medieval, torna-se clara a existência de uma contínua controvérsia entre as estruturas conceituais criacionista e evolucionista, especialmente no âmbito dos processos educativos. Na nova “plenitude dos tempos” que se desdobra no contexto profético das mensagens angélicas de Apocalipse 14, passa a ser dado destaque especial a essa controvérsia a partir de meados do século dezenove.

De fato, ao mesmo tempo em que passa a ser divulgada “com grande voz” a mensagem que conclama os homens a adorar o Criador, também se inicia a pregação evolucionista entronizando o mero acaso, na tentativa de destronar “Aquele que fez”.

No decorrer deste cerca de século e meio, têm sido evidenciadas amplamente as funestas conseqüências da secularização da sociedade com a aceitação da estrutura conceitual evolucionista. O perigo impendente é que até os próprios cristãos sejam levados de roldão por essa avassaladora onda ateísta e materialista. O único verdadeiro antídoto certamente reside nos princípios preconizados pela educação cristã, com ênfase especial dada à estrutura conceitual criacionista baseada na revelação que nos é dada na Bíblia.

A educação cristã não só proporciona o pleno desenvolvimento das faculdades e potencialidades, dentro das limitações que ora pesam sobre os seres humanos, mas também tem em vista a restauração da imagem de Deus que será efetuada como resultado final da grande obra de redenção realizada por Jesus Cristo, quando então: “... todas as faculdades se desenvolverão, ampliar-se-ão todas as capacidades. A aquisição do conhecimento não cansará o espírito nem esgotará as energias. Ali, os mais grandiosos empreendimentos poderão ser levados avante, alcançadas as mais elevadas aspirações, as mais altas ambições realizadas; e surgirão ainda novas alturas a atingir, novas maravilhas a adquirir, novas verdades a compreender, novos objetivos a aguçar as faculdades do espírito, da alma e do corpo.” (37)

Que Deus nos possa conceder maior compreensão da importância que está contida na tarefa da educação cristã que pesa sobre nós no lar, na igreja e na escola. Como pais, professores e oficiais da igreja, possamos ampliar nossa visão da responsabilidade que nos cabe, e possamos fazer cada vez mais, conscientemente, aquilo que está a nosso alcance para atingir os verdadeiros objetivos da educação cristã em toda a sua abrangência.

 

5. REFERÊNCIAS

  1. Vieira, Ruy Carlos de Camargo Vieira, “A Visão Criacionista da Educação”, Versão preliminar da palestra efetuada pelo Prof. Ruy Carlos de Camargo Vieira no dia 29 de janeiro de 1997 no Encontro de Professores da APLAC realizado em Brasília, Sociedade Criacionista Brasileira, 1997.
  2. The Seventh-Day Adventist General Conference, “The General Conference Bulletin” Thirty-fifth Session, Fourteenth Meeting, Oakland, Cal. April, 8, 1903, vol. 5, nº 8, pp.109-112.
  3. Review and Herald Publishing Association, 1996, Seventh Day Adventist Encyclopedia, vol. 11, verbete Sutherland, Edward Alexander.
  4. Idem, ibid. Ref. (2), Twenty-fourth Meeting, vol. 5, nº 13, pp. 205-213.
  5. Review and Herald Publishing Association, 1996, Seventh Day Adventist Encyclopedia, vol. 10, verbete Jones, Alonzo T.
  6. Idem Ref. (2).
  7. Idem Ref. (2).
  8. Idem Ref. (4).
  9. Bréal, Michel e Bailly, Anatole, “Dictionnaire Étymologique Latin”, 8ª ed., verbetes citados, Librairie Hachette, Paris, 1918.
  10. White, Ellen G.,“Educação”, 3ª ed., p. 13, Casa Publicadora Brasileira, Santo André, SP, s/d.
  11. Bill Cooper, “Depois do Dilúvio”, pp.20-21, Sociedade Criacionista Brasileira, 2008.
  12. Idem Ref. (2).
  13. Idem Ref. (2).
  14. Idem Ref. (2).
  15. Idem Ref. (4).
  16. White, Ellen G., “Testemunhos Seletos”, vol. I, p. 605, Casa Publicadora Brasileira, Santo André, SP, 1954.
  17. Idem Ref. 10, pp. 16-17.
  18. Westfall, Richard S., “The Life of Isaac Newton”, p.204, Cambridge: University Press, 1993.
  19. Cohen, Bernard, “Isaac Newton: Papers and Letters on Natural Philosophy”, p. 284, Cambridge: Harvard University Press, 1958.
  20. Idem Ref. 18, p. 301.
  21. Idem Ref. 10, p. 16.
  22. Idem Ref. 10, p. 128.
  23. Idem Ref. 10, p. 128.
  24. Idem Ref. 10, p. 17.
  25. Idem Ref. 10, p.133
  26. Ribeiro, Marco Antônio Baumgratz, “A Cosmovisão Teísta como Fundamento Original da Moderna Pedagogia”, Revista Criacionista nº 78, pp. 5-20, Sociedade Criacionista Brasileira, 2008.
  27. Vieira, Ruy Carlos de Camargo Vieira, “Vida e Obra de Guilherme Stein Jr.”, pp. 116-122, Casa Publicadora Brasileira, Tatuí, SP, 1995.
  28. Ribeiro, Domingos, “Origens do Evangelismo Brasileiro”, p. 106, Apollo, Rio de Janeiro, 1937.
  29. Idem, p. 95.
  30. Barbosa, Rui, “Discursos Parlamentares - Parecer sobre a Reforma do Ensino Secundário e Superior (1882)”, Perfis Parlamentares 28, pp. 440 e ss., Câmara dos Deputados, Brasília, 1985.
  31. Azevedo, Fernando de, “A Cultura Brasileira”, pp. 367-368, Serviço Gráfico do IBGE, 1943.
  32. Mehedff, Nassim G., “Notas para a elaboração de um Documento sobre a Política Nacional de Formação Profissional”, Documento de circulação restrita elaborado para a Secretaria de Educação Tecnológica do MEC como contribuição para o traçado de diretrizes para a Educação Nacional.
  33. Referência 10, particularmente pp. 16-17.
  34. Pitombo, Luiz Roberto de Moraes, “Reflexões sobre o Processo Ensino-Aprendizagem do Conhecimento Químico”, Instituto de Química da Universidade de São Paulo. Documento de circulação restrita elaborado para a Secretaria de Educação Fundamental do MEC como contribuição para o aprimoramento do ensino de Ciências no Brasil.
  35. Idem Ref. 34, p. 5.
  36. Idem Refs. 24, 22 e 23.
  37. White, Ellen G., “O Grande Conflito”, pp. 394-395, Casa Publicadora Brasileira, 2000.


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